por Vitória Amazonas

Falar sobre democracia é falar sobre participação. Muito além do voto, uma democracia forte depende da presença ativa da população nos espaços onde as decisões são tomadas. Conselhos, conferências, movimentos sociais, entidades estudantis, sindicatos e coletivos são instrumentos fundamentais para que diferentes vozes sejam ouvidas e para que as políticas públicas respondam às necessidades reais da sociedade.
Mas essa participação ainda não acontece de forma igual. As mulheres seguem enfrentando obstáculos para ocupar espaços de poder e decisão. A violência política de gênero, a sobrecarga do trabalho de cuidado, as desigualdades econômicas e o machismo estrutural continuam afastando milhares de mulheres da vida pública. Por isso, defender a participação das mulheres não é uma pauta exclusiva do movimento feminista, mas uma condição para o fortalecimento da democracia brasileira.
Os direitos que hoje fazem parte da vida de milhões de brasileiras não surgiram de forma espontânea. Foram conquistados pela organização coletiva. O direito ao voto, as políticas de enfrentamento à violência contra a mulher, os avanços na educação, na saúde, na assistência social e tantas outras conquistas nasceram da mobilização de mulheres que transformaram indignação em ação política e ação política em direitos.
É dessa tradição de luta que o Coletivo Para Todas se fortalece. Como espaço de auto-organização das mulheres dentro do movimento estudantil e do campo democrático-popular, o coletivo acredita que construir uma sociedade mais justa passa, necessariamente, pela participação ativa das mulheres na política e na formulação de políticas públicas. Não basta criar espaços para as mulheres. É preciso garantir que elas tenham voz, representatividade e condições reais de influenciar as decisões que impactam suas vidas.
Essa compreensão orienta as bandeiras que defendemos. Lutar por permanência estudantil, enfrentar todas as formas de assédio e violência de gênero, combater o feminicídio, garantir dignidade materna, ampliar a participação política das mulheres e defender a autonomia sobre nossos corpos são pautas que fortalecem a cidadania e aprofundam a democracia. Não são reivindicações isoladas, mas compromissos com um projeto de país onde todas as pessoas tenham condições reais de participar da vida política e social.
Na Amazônia, essa discussão ganha ainda mais relevância. As mulheres amazônidas conhecem de perto os desafios impostos pelas desigualdades sociais, pelas distâncias territoriais e pelas dificuldades de acesso a direitos básicos. Ao mesmo tempo, são elas que organizam comunidades, defendem seus territórios, preservam saberes ancestrais e constroem alternativas coletivas para enfrentar problemas históricos. Quando essas mulheres ocupam os espaços de participação, fortalecem não apenas suas comunidades, mas também a democracia brasileira.
A participação social também é um espaço de formação política. É nos movimentos sociais, nas entidades estudantis e nos coletivos que muitas jovens têm o primeiro contato com o debate público, aprendem a defender direitos, construir propostas e compreender que a política pode ser um instrumento de transformação social. Quanto mais mulheres ocupam esses espaços, mais diversa e representativa se torna a construção das políticas públicas.
No ParaTodos, acreditamos que a democracia não pode ser reduzida às eleições. Ela precisa estar presente no cotidiano, nas universidades, nas escolas, nos bairros e em todos os espaços de organização popular. É na participação coletiva que surgem novas lideranças, novas ideias e novas formas de enfrentar as desigualdades que ainda marcam o Brasil. É também nesse processo que o feminismo reafirma seu papel como uma luta por igualdade, justiça social e ampliação da democracia.
Fortalecer a democracia significa fortalecer a participação popular. E fortalecer a participação popular exige reconhecer que as mulheres precisam estar no centro das decisões sobre o presente e o futuro do país. O feminismo nos ensina que democracia não é apenas garantir direitos no papel, mas criar condições para que todas as pessoas possam exercê-los de forma plena.
Quando as mulheres participam, a democracia deixa de ser apenas um princípio constitucional e se transforma em uma experiência concreta de inclusão, justiça e transformação social. É por isso que seguimos organizadas, construindo o Coletivo Para Todas e fortalecendo o ParaTodos. Porque acreditamos que a política muda quando mais mulheres ocupam os espaços de decisão. E acreditamos, acima de tudo, que uma democracia verdadeiramente popular só será possível quando todas tiverem voz, direitos e protagonismo na construção do futuro do Brasil.



